Se perguntarmos a alguma criança o que ela mais gosta de fazer, de certeza que uma das respostas espontâneas será brincar. Devemos entender que brincar não é apenas algo que as crianças gostam de fazer, mas algo que elas precisam fazer. Engana-se quem acredita na dicotomia brincadeira vs aprendizagem. A brincadeira não é uma perda de tempo, representando, antes pelo contrário, um ótimo meio para o desenvolvimento e a aprendizagem das crianças, incluindo aquelas que já frequentam a escolaridade obrigatória, como é o caso das crianças que frequentam o 1.º ciclo do ensino básico.
A investigação mostra que a brincadeira (também entendido como tempo livre para crianças mais velhas e adolescentes) tem vários benefícios para crianças de todas as idades a nível físico, cognitivo e socioemocional. Especificamente, além de deixar as crianças felizes, brincar exercita a criatividade, permite praticar a negociação e a resolução de problemas, descobrir interesses pessoais e, em alguns casos, mantém as crianças fisicamente ativas, entre outros benefícios [1].
Neste sentido, é preocupante a constatação de que o tempo despendido por algumas crianças em atividades de brincadeira tem diminuído, o que resulta de uma multiplicidade de fatores. Entre eles, o excesso do tempo escolar (passado na escola e a estudar em casa), a pressão excessiva para a participação em atividades de enriquecimento académico desde cedo, e/ou a utilização excessiva do entretenimento multimédia, como é o caso da televisão, do computador e do telemóvel [1].
Assim, reconhecendo a sua vital importância para o desenvolvimento integral da criança, e enquanto um dos Direitos das Crianças (especificamente, princípio 7: “a criança deve ter plena oportunidade para brincar”), tão relevante como os direitos à educação e aos cuidados de saúde [2], é desejável que a brincadeira faça parte da agenda diária das crianças, seja no contexto familiar como no contexto escolar, a par de outras oportunidades de desenvolvimento pessoal, social e académico que respondam às necessidades de cada criança.
[1] Ginsburg, K. R. (2007). The importance of play in promoting healthy child development and maintaining strong parent­child bonds. Pediatrics, 119 (1), 182-191.
[2] Assembleia Geral das Nações Unidas (1959). Declaração dos Direitos das Crianças. Retirado de
https://www.dge.mec.pt/sites/default/files/ECidadania/Docs_referencia/declaracao_universal_direitos_crianca.pdf
Por Carla Peixoto, Psicóloga, Docente no Instituto Universitário da Maia (ISMAI) e na Escola Superior de Educação no Instituto Politécnico do Porto (ESE-IPP)