“Se eu sabia o que sei hoje…” (…) “Que bom que era quando éramos crianças, sem preocupações, sem responsabilidades, sem contas para pagar, sem…” Tudo parece mais simples quando viajámos no tempo e recordámos a nossa infância.

Ora, imagine-se criança. Agora mesmo. Volte atrás no tempo. Mais baixo/a, com voz de miúdo/a, mais ingénuo/a, com sonhos vivos, quiçá mais destemido/a, certo/a que o Pai Natal existe de verdade. Está?

Pois bem, olá criança!

Eu sei como é. Acordas de manhã ainda com algum sono e uma certa vontade de ficar na cama. A vontade de encontrar os colegas na escola ganha terreno ao passo que és vestido/a pela mãe/pai. E vêm o pequeno-almoço, à mesa, ou pelo caminho, ou não tomas porque não te apetece. Na mochila levas o lanche da manhã e da tarde preparado pela mãe/pai. Não tens autorização para ir ao supermercado. Nem para sair da escola. Tampouco dinheiro para comprar o que quer que seja. Almoças no refeitório da escola. Não podes comprar nada. E pensas: “Dependo dos meus pais para tudo! Inclusive o que está na dispensa, no frigorífico, nas prateleiras quando volto para casa.”

Por isso, na realidade tudo o que tens para comer é, na realidade, decidido pelos teus pais e pela escola.

Nem todas as histórias são 100% assim, mas não se apresse a justificar com todo e qualquer argumento de desresponsabilização sobre esta matéria. Talvez não se queira estar para chatear mais. O cansaço é compreensível, mas não arrecada para ele a responsabilidade de quem decide.

A disponibilidade alimentar desperta as vontades e cultiva hábitos. Não será difícil perceber que as crianças só comem aquilo a que têm acesso. Evidente que ninguém perderia nada (incluindo nós adultos) se alguns produtos alimentares simplesmente desaparecessem. Mas sendo razoável no contexto atual, não faltarão oportunidades para o consumo de guloseimas, bolos, sumos e companhias. O rodopio de alimentos nutricionalmente vazios que existem quase todos os fins-de-semana em festas de aniversário ou em casa dos avós ou familiares constitui uma casa cheia de problemas se não houver uma autoridade parental que doseie com a disponibilidade semanal da criança. Com efeito, na casa onde resida a criança, se ela souber que naquele espaço não há daqueles produtos, o caminho da educação alimentar, o consumo de alimentos em natura ou minimamente processados/ confecionados, a estipulação de regras e a convivência em maior harmonia nutricional e familiar, muito provavelmente estará mais disponível! É uma questão de disponibilidades.

Por outro lado, as crianças são o reflexo do que vivem e as primeiras aprendizagens são por pura imitação. Do melhor que temos e do pior também. Seguem modelos de admiração e fantasia. Por um largo período de tempo os heróis são mesmo os pais, concorrendo com aquela personagem de banda desenhada, atletas, artistas, amigo/a especial. Por isso, antes de qualquer estratégia adicional, primeiro, seja o exemplo. E se for natural, mais genuíno e eficaz será. Por isso, muitas crianças apenas poderão ser ajudadas pelos pais, casos os pais de antemão se endireitarem.

Não espere que a sua criança coma sopa ou hortícolas no prato sem reclamar se for o único a sentar-se na mesa para fazê-lo. Não espere que ele/a saiba dizer “não” depois de ver o pai/mãe a repetir 2 ou 3 vezes o prato com o argumento de “não estragar”, ao invés de ver guardar as sobras para uma próxima refeição. Nem espere que ele coma fruta quando sabe que está uma mousse de chocolate a brilhar no frigorífico. Nem espere dar o exemplo uma vez e resolver o assunto.

A solução vem pela repetição contínua do exemplo.

Daniel Branco | Nutricionista | C.P. Nº 1927 da Ordem dos Nutricionistas

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