Crescer num lar onde afeto, carinho e alegria é sempre acompanhado de muita comida não é tarefa fácil para uma criança obesa. As minhas melhores lembranças são reuniões de família e perfumes que vinham da cozinha, pão, macarronada, cachorro quente, brigadeiro, bolo de milho verde e por aí vai.

O melhor e mais frequentado lugar da casa sempre foi a cozinha, era lá que tudo acontecia, conversas, choros, risadas e grandes decisões sempre foram tomadas naquele local. Natural quando se juntam pessoas de origem portuguesa, italiana e síria numa mesma família. Tudo parecia certo, até meu peso não se encaixar nos padrões das crianças fora do meu lar.

Ser uma criança obesa não era um problema para mim, era amada e aceita dentro de casa, mas fora, sempre ouvia piadinhas das outras crianças, alcunhas pouco agradáveis como “baleia saco de areia”, era a última a ser escolhida para os jogos coletivos, os adultos lá fora diziam “tens um rosto lindo, porque não emagreces?”.

Claro que para superar esta rejeição disfarçada, sem ter consciência exata disto, desenvolvi outras capacidades como simpatia, senso de humor, comunicação e porque não dizer inteligência, que me ajudaram e muito a superar esta questão. Não me lembro de fato de ter sofrido “horrores”, mas poderia ter sido pior, poderia não ter superado.

A obesidade na infância não é somente uma questão de aparência, os estragos emocionais podem ser devastadores, pois a sociedade atual é cruel para quem não é magro, sem contar, é claro, e o que mais importa, a saúde, incluindo, depois na fase adulta. Para o controlo da obesidade infantil é preciso reeducar a família, não basta pressionar a criança, o comportamento saudável começa em casa, é preciso desvincular o amor e o afeto do alimentar-se e buscar outras fontes de prazer em comum.

Cristiane Pavanello Silva| Docente na Escola Superior de Saúde de Santa Maria| Coordenadora do CTESP Gerontologia e Cuidados de Longa Duração